terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Adriano Nunes: “Dos sonhos aflora”

“Dos sonhos aflora”


São só sete horas.
A vida, à deriva
De tudo, incisiva,
Dos sonhos aflora.

De ser-me se esquiva
Quem me penso agora.
Sentir o lá fora
Dói, de forma ativa.

São sete horas, ora!
A vida, cativa
Do devir, que viva
Do amor que a melhora!

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Adriano Nunes: "2018"

"2018"


Começaste bem
Distinto do outro.
Será que por isto 
Chamam-te de novo?

Que trazes em ti
Para que nós todos
Possamos sentir
O teu denso brilho,

Teus matizes de
Grã felicidade,
Teu sol infinito?
Será que convém

A ti, ser-te novo
Por seres um outro
Apenas ou se
Não ser o que ido

Foi-se, sem o mínimo
De qualquer vestígio
Deixar em ti, visto
Ser, assim, distinto,

É que, sem esforço,
Não implica pouco:
Isto é: és novo
De espírito e corpo

Por ser, desde o íntimo
Do ignoto devir,
O que há de vir?
Começaste? Quem

Ousa dizer: "nem
Mesmo sob o risco
De ser, ab initio,
Outro, não és novo"?

Dois mil e dezoito,
Começaste, aos poucos,
Pleno, portentoso,
Qual excelso bem!

Ella Wheeler Wilcox: “The year” (tradução de Adriano Nunes)

“O ano” (tradução de Adriano Nunes)


Que pode ser dito em rimas de Ano Novo,
Que miríade de vezes não seja exposto?
Os anos novos vêm, esvão-se os velhos anos,
Sabemos dos sonhos, os saberes sonhamos.
Despertamos com sorrisos com o clarão,
Repousamos aos prantos com a escuridão.
Abraçamos o mundo até que ele arda,
Praguejamo-no então e almejamos por asas.
Vivemos, amamos, cortejamos, casamos,
Cingimos as noivas, os mortos enterramos.
Rimos, choramos, esperamos, receamos,
E isto é o fardo do ano.

Ella Wheeler Wilcox: “The year”

What can be said in New Year rhymes,
That's not been said a thousand times?
The new years come, the old years go,
We know we dream, we dream we know.
We rise up laughing with the light,
We lie down weeping with the night.
We hug the world until it stings,
We curse it then and sigh for wings.
We live, we love, we woo, we wed,
We wreathe our brides, we sheet our dead.
We laugh, we weep, we hope, we fear,
And that's the burden of the year.

WILCOX, Ella Wheeler. Collected poems. London: L.B. Hill, 1924.

Este poema pode ser lido no site: https://m.poets.org/poetsorg/poem/year. Acesso 01/01/2018.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Adriano Nunes: “Este que volta à ágora, sem presa”

“Este que volta à ágora, sem presa”


Em mim não há nada que seja teu.
Disso até bem sei desde quando era
Um ateniense, na arcaica Grécia,
Quando do fígado de Prometeu
O corvo não tinha arrancado mera
Migalha, desde quando a esfera pétrea
De Sísifo repousava no breu

Das sinapses sincréticas de Zeus.
Este que volta à ágora, sem pressa,
Agora sabe como a vez se deu,
Feito metáfora, quase quimera.
Ah, tudo já se espraia e se esfacela,
Por cada ritmo do que aconteceu!
De mim jorram lágrimas de Teseu.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Adriano Nunes: “Ó, poor pooh-bahs”

“Ó, poor pooh-bahs


Pooh-bahs
Behind the bars,
Cloistered are.

Strange stars
Of crime so far
From the poor

People and their
Desires and scars.
They have grabbed

Their lifes and
Ruined them.
They do not care!

They are happy
With their cruel acts,
Oppressing

The most needy
Human beings.
Ó, poor pooh-bahs!

Adriano Nunes:"Solidão"

“Solidão”


Os indivíduos solitários
Parecem ter dentro de si
O mundo. Parecem levar
Na aljava dos seus pensamentos

Cada sentido, cada mar
De silêncios, a cada passo.
Devem ser felizes sozinhos.
Devem ser tristes também,

Sem que ninguém os interrogue
Sobre a sua luz e o seu norte.
Por que amam demais os matizes

Da solidão? Que ganham, em
Segredo? Que estimado bem
Retêm em seus corações fortes?

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Adriano Nunes: "Proteu"

“Proteu”


No meio
De ritos
E ditos
Alheios,
Mais vivo.
Sei sê-los.

Não digo
De mim,
É cedo!
Mas sim
Dos que
Concebo

Da pele
Ao cerne
Do vasto
Desejo
De não
Ser mesmo -

Refiro-me
Àqueles
Que não
Sei - medo? -
Se são
Refeitos,

Por sonhos,
A cada
Momento,
Se são
Do âmago
Efeitos,

Ou se
Só são
Espectros
De outros
Que aceito,

Que vingam
Em mim,
Nos versos,
Sem, - juro! -,
Sabê-los
Inteiros,

Se usam
Meus métodos,
As mãos
Que são
As minhas,
Com jeito,

E instauram
O que
Já penso,
Ainda
Que trêmulos,
- Faceiros? -,

Ou se
São seres
Sós, cegos
De si,
Que, enfim,
Por vê-los

Efígies
Estéticas
Emprestam
À vez
Sóis, louros,
Voz, zelos.

Será
Que não
São, vê,
Ignoto
Leitor,
Espelhos,

Ou isso:
Espanto e
Instinto
Enquanto
A-penas
Escrevo?