segunda-feira, 22 de maio de 2017

Marianne Moore: "Under a Patched Sail" (tradução de Adriano Nunes)

"Sob uma vela remendada" (Tradução de Adriano Nunes)


"Oh, beberemos novamente
Quando costeiro está o vento"
Da velha jarra beberemos,
E ao porto então,
Para o tempo vingar pequeno.
Vem rapaz - aos dias que são!


Marianne Moore: "Under a Patched Sail" 


“Oh, we’ll drink once more
when the wind’s off shore,”
We’ll drink from the good old jar,
And then to port,
For the time grows short.
Come lad—to the days that are!



MOORE, Marianne. Complete Poems. New York: Penguin, 1994.

Adriano Nunes: "O poema" - para Fátima Castro (por seu aniversário)

"O poema" - para Fátima Castro (por seu aniversário)


Uma tela
Para ela,
Para vê-la
Leve, nesta
Sua vera
Primavera.

Que sol vela
Esse esquema
Que, à espera
De voz bela,
Ou quimera,
Não se entrega

Fácil? Era a
Verve pela
Vez ou sê-la,
De vez, nesta
Lei suprema:
O poema.

domingo, 21 de maio de 2017

Adriano Nunes: "Chuvosa manhã"

"Chuvosa manhã"


Não há mesmo pensar que não te sinta,
Ó molhada manhã! Tudo se esvai
Com as águas da chuva, até meus ais!
Que ilusões poderás tanto ainda?

Será que assim darás à vida mais
Do que espera e atenção ou, na berlinda
Dos acasos do olhar, tiras a tinta
Das paredes, o sol que do ver sai?

Ah, miríade móvel de esperança,
Ah, gota de devir que a alma alcança,
Como métrica dar ao que não finda?

Como ao verso lançar tua beleza
E, aquosa e acesa, atá-la à correnteza
Do agora que me afaga e me distrai?

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Adriano Nunes: "Εὐριπίδης" - para Alberto Lins Caldas

"Εὐριπίδης" - para Alberto Lins Caldas


Agora que a
Ágora está
Vazia, que
Não há mais grego
Ou grega nos
Vãos, arredores,
Que não há deuses
A velar pelo
Porvir mimético,
Pelo devir
Que muito mais
Pode, que Hélios
Carrega embora
O sol, sem pressa,
Dá pra sentir
Já por que todos
Saíram em
Silêncio. Não
Há mais consenso.
Ah, nunca houve!
Consenso era
O ideal de
Que tudo mesmo
Seria igual.
Agora que
Todos se foram
E dispersaram-se
Por vias e
Vácuos, bem vê,
Rest' uma rédea
Ainda presa
À ideia, como
Cláusula pétrea.
Sonha o silêncio!
Ao longe, escuta-se
O baque agudo
De pedra. Um eco
Em direção
Ao que se mexe.
Nem grego ou grega
Pra trás se voltam.
Apenas dizem,
Impressionados,
Que um jovem bardo,
De nome Eurípides,
Cantando Alceste,
Os concorrentes
Logo elimina,
Com magna arte e
Talento. Quase
Nada mais sabe-se
Dele, a não ser
Que bem nascera
Em Salamina.

Adriano Nunes: "Votar já!"

"Votar já!"


Tantos ratos
Pelos ocos
Dos esgotos
Do Planalto
Tantas tretas
E conchavos
Pouco a pouco
Revelados
Tantos pactos
Contra o povo
Tão tramados
Já expostos
Tantos vácuos
Na moral
Do negócio
Eleitoral -
Tantos! Qual
A saída
Dessa zorra
Sem igual?
Tanta mídia
Sub-reptícia
A abafar
Tanto escândalo!
Tanto podre
Poder pelos
Corredores
Do Congresso.
Tanto jeito
Brasileiro
De furtar
Bens, dinheiro.
Cidadãos,
Tão sofridos,
Enganados
Pagam pato
Desse estrago
Democrático.
Não se ouve
Mais panela
Das janelas
Dos Jardins,
Do Leblon?
Outro som
Pelas ruas
Faz gerar
Um desejo
Verdadeiro:
Votar já!
Votar já!
Votar já!
Votar já!

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Jaime Sabines: "No quiero paz" (Tradução de Adriano Nunes)

"Não quero paz" (tradução de Adriano Nunes)

Não quero paz, não há paz,
quero minha solidão.
Quero meu coração desnudo
para atirá-lo à rua,
quero fincar-me surdo-mudo.
Que ninguém me visite,
Que eu não veja ninguém,
E que se há alguém, como eu, com asco,
que o trague.
Quero minha solidão,
não quero paz, não há paz.

Jaime Sabines: "No quiero paz"

No quiero paz, no hay paz,
 quiero mi soledad.
 Quiero mi corazón desnudo
 para tirarlo a la calle,
 quiero quedarme sordomudo.
 Que nadie me visite,
 que yo no mire a nadie,
 y que si hay alguien, como yo, con asco,
 que se lo trague.
 Quiero mi soledad,
 no quiero paz, no hay paz.


SABINES, Jaime. "No quiero paz". In:_____."La señal". In:_____. Horal/La señal. México, D.F.: Joaquín Mortiz, 2013.

Adriano Nunes: "Nossa podridão contra o outro"

"Nossa podridão contra o outro"


Massacrados.
Todos os dias somos massacrados
Pela massa que somos,
Por sermos quem somos,
Por sermos quem não somos,
Por sonharmos, pelos sonhos.
Massacrados
Pelo escárnio de sermos o escárnio
Da intolerância, o excremento
Da indiferença
Enquanto ejaculamos, à socapa,
Nossa podridão contra o outro,
Aquele que não somos,
Aquele que nos odiamos por não o ser,
Aquele do aceno grácil e das fraquezas,
Aquele da raiva e do rancor, das regras rígidas,
Dos assombros, dos furtos de esperanças e da fome faraônica,
Massacrados
Pelos convites, dos convictos de tudo,
Para os seus séquitos de ordem e glória,
Pelos bordões anedóticos dos racismos intitucionalizados,
Pelos egos bordados a ouro e dominação,
Pelas desculpas na hora do exílio social,
Pelas panelas de aço e de hipocrisia,
Pela tosse crônica dos mais e porquês.
Massacrados por crases e gerúndios,
À revelia dos que estão engendrando
Poder, pranto e ponto eletrônico e carteiras assinadas
Pelo horror de tudo que há.
Massacrados pelo nada.
Porque é tempo de ser nada.
O nada faminto e sedento.
O nada arquitetado por métodos e melodramas,
Por astúcias e armadilhas.
Massacrados pela tirânica justiça dos que clamam
Pela balança desequlibradamente para o lado de lá.
O lado que pesa.
O lado que despreza a razão crítica.
Mas o que seria do lado de lá se não fôssemos, nós,
Esse apoteótico rebanho hightech pop midiático,
Esse estrume esdrúxulo e espúrio e purgante
A reinvidicar os restos do que não mais somos,
Do que não mais seremos,
Esse atropelo feroz de identidades mesquinhas,
Prontas para esfacelar o dia, a vez, a voz.
Massacrados pelos feitos à imagem e à semelhança
Das ilusões dos que atiram pedras das alturas.
Massacrados pelas ideologias e dogmas,
Pelas nossas escolhas, pelas nossas dúvidas,
Porque sempre houve juízos
Injustamente justos e justificáveis e acima do bem e do mal.
Massacrados pela felicidade e
Pela tela de trinta e duas polegadas de tédio e farsa,
Pelas tropas de trumps e tremendous traps,
Pelos populismos doentios e cegos,
Pelo moralismo nefasto dos moralizadores ad hoc,
Para sempre,
Sem previsão de férias.
Massacradamente humanos.